Futuro aponta para a “intencionalidade” e o casamento da ferramenta com a robótica para superar limitações de destreza, falhas e imprevisibilidade
Por Martha Funke — Para o Valor, de São Paulo
18/12/2025 05h03
A escolha dos “Arquitetos de IA” como Pessoa do Ano 2025 pela revista “Time” reflete a dimensão e o impacto da inteligência artificial no cenário atual e futuro. A publicação americana repetiu o modelo impessoal de 1982, que celebrou o computador, e de 2006, quando a Pessoa do Ano foi “Você”, ressaltando o poder dos indivíduos on-line.
A IA se popularizou tanto entre empresas quanto entre indivíduos. Está presente em 88% das companhias ao redor do mundo em alguma medida, e 79% adotam a IA generativa (GenAI), segundo relatório da EY baseado em dados da McKinsey e da Universidade de Stanford. O divisor de águas foi a chegada do ChatGPT em 2022, que em menos de uma semana registrou um milhão de acessos e chegou a dezembro de 2025 com 800 milhões de usuários semanais.
Estudo da EY com 15 mil empregados e 1,5 mil empregadores em 29 países em meados deste ano indica que 88% dos trabalhadores usam IA. A maioria utiliza para tarefas básicas, como buscar informações (54%) ou resumir documentos (38%). Apenas 5% empregam na criação de estruturas capazes, por exemplo, de acessar diferentes documentos, resumi-los e obter resposta para apoiar tomada de decisão, diz David Dias, sócio-líder de IA da EY na América Latina.
A partir de 2026, o descompasso entre o potencial da tecnologia e sua geração de valor tende a encolher. A IA está tecnicamente madura, mas a adoção em larga escala, sobretudo de agentes autônomos, foi adiada para o ano que vem. Esse atraso é atribuído à falta de talentos, a desafios de governança e à necessidade de novos modelos operacionais.
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Camilo Girardelli: “Robôs cirúrgicos detectam a espessura de uma casca de uva” — Foto: Divulgação
Para Fabricio Lira, diretor de IA e dados da IBM Brasil, os agentes devem despontar em operações de back-office, como processamento de pedidos até o pagamento, em 71% dos casos, segundo estudo da casa, recursos humanos (62%), processos de compra completos (55%) e finanças (37%). “Eles utilizam modelos de linguagem para interpretar dados em tempo real, invocar ferramentas externas e executar tarefas sem supervisão continua.”
O avanço dos agentes de IA permite antecipar cenários onde veículos, drones, dispositivos domésticos e sensores médicos interagem e tomam decisões autônomas. Silvio Dantas, diretor executivo de inovação e transformação digital da Capgemini Brasil, diz que 2026 marcará a transição das provas de conceito desses agentes para a operação real, com impacto mensurável. As decisões mais autônomas, sem supervisão constante, devem se consolidar em 2027.
Segundo o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), a IA Generativa (GenAI) já faz parte da rotina de mais de 50 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais. Esse número representa 32% dos usuários de internet no Brasil. Com mais da metade (52%) dos brasileiros realizando compras online, o varejo deve ser um forte indutor do uso pessoal de agentes de IA em curto prazo. Isso pode ocorrer tanto pelo uso individual de plataformas de GenAI pelos consumidores quanto pelo lançamento de agentes especializados por empresas do setor.
Em 2026 chegam ao Brasil soluções de pagamento para comércio autônomo da Mastercard e da Visa. Marcas como Magalu já criaram agentes próprios. “As marcas devem desenvolver capacidade agêntica conversacional em múltiplas plataformas para não perder espaço, dados do cliente ou faturamento para terceiros”, defende Rodrigo Helcer, sócio da Blip.
A tendência é que os agentes de IA ganhem cada vez mais autonomia, ultrapassando ações como acionar alertas de segurança ou de inconformidade em documentos. Norberto Alves Ferreira, gerente de soluções de IA e IoT do CPQD, prevê que em quatro anos o avanço no detalhamento de operações e dados permitirá que os modelos não apenas tomem as melhores decisões, mas também sugiram melhorias de forma autônoma.
O próximo passo da IA é a intencionalidade, que permite testar cenários e alcançar objetivos a partir de dados não existentes – como na combinação de moléculas para novas drogas. Essa capacidade impulsionará o casamento entre robótica e IA em 2026. Os robôs ganharão visão computacional mais robusta, planejamento dinâmico assistido por IA, permitindo adaptação a imprevistos, e aprenderão com menos dependência de programação, superando a atual limitação na compreensão de contexto que impede o avanço de robôs humanoides mais sofisticados.
Novas abordagens também ampliam as possibilidades da IA. A IA Mundial ou espacial, como o Genie 3 da DeepMind, converte instruções de texto em interpretações de mundo baseadas nas leis da física, otimizando previsões, como as climáticas. Outra é a IA neuro-simbólica, que combina modelos para replicar a abstração humana, permitindo à IA justificar suas decisões e, crucialmente, reduzir a necessidade de treinamento e o consumo brutal de energia da GenAI atual.
Tais abordagens são cruciais para superar as limitações da robótica atual, conforme aponta Camilo Girardelli, membro sênior do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE). Entre os desafios, está a recuperação de falhas: o carro autônomo, hoje um dos melhores exemplos da robótica inteligente, ainda é incapaz de lidar com situações inesperadas. Outra limitação é a destreza, pois, mesmo com avanços em respostas finas, como manipular uma taça de cristal, robôs ainda não conseguem realizar tarefas de coordenação motora complexa, como abotoar uma camiseta.
“Robôs cirúrgicos detectam a espessura de uma casca de uva, mas são gigantescos e caríssimos”, diz Girardelli. “A convergência entre IA e robótica avançada deve ocorrer nos próximos três a cinco anos, com evolução de autonomia, infraestrutura e edge computing para reduzir latência e permitir respostas imediatas”, afirma Lira.
Reprodução: Valor Econômico



